sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Acha que só você sabe o que é sofrimento? Vou lhe dizer algo sobre pessoas como eu.
Pessoas como eu sentem-se perdidas, inferiores, feias...e dispensáveis.
Pessoas como eu têm maridos que transam com outras mais perfeitas do que eu.
Pessoas como eu têm filhos que as odeiam.
É como acordar toda manhã e falhar. Olho em volta e todos parecem ter sucesso, mas por alguma razão eu não consigo, não importa o quanto eu tente.
Por alguma razão nunca serei boa o bastante."

É com essa fala de Michelle Pfeiffer que eu sempre choro. Só de transcrevê-la aqui já me encheu os olhos d'água.
Ela interpreta uma advogada bem-sucedida e está respondendo a um doente mental quando este diz a ela que ela não sabe o que é tentar, tentar, tentar e não conseguir. Pessoas como ela não sabem que tipo de sofrimento é esse, porque nasceram perfeitas.

Não sei se já falei sobre esse filme aqui, mas não importa.


Minha vida tem estado uma bagunça e eu tenho tentado de verdade me acertar.
Ninguém disse que seria fácil.
Mas começo a me preocupar de verdade.

Pensando recentemente sobre toda a minha vida. Tudo que eu desisti, tudo que eu deixei para trás, tudo que não consegui cuidar...
E cá estou eu. Com 28 anos. Sem um emprego fixo, sem saber direito o que quero da vida...sem um objetivo...um caminho.
Precisando desesperadamente de um carinho qualquer. Sabendo que sempre me apaixono e deixo escapar a garota amada.

E me peguei pensando...todos os meus amigos, são mais descolados, bem apessoados...perfeitos de certa maneira. Normais.
E eu sou só um gordo que tenta ser estiloso. Vesgo, que enxerga mal...E eu escondo isso falando pelos cotovelos sobre filmes e música...fazendo piadas...
Guardando pra mim toda uma vida de desprezo, solidão, tristeza...
Por quê com quem eu falaria sobre essas coisas...mesmo que entendessem realmente, do que adiantaria?

Eu ando de ônibus de graça e vou ao cinema de graça porque enxergo mal.
Isso não me torna diferente...pior ou melhor.

É onde finalmente acabam minhas lamentações e entra o filme.

I Am Sam (Uma Lição de Amor aqui no Brasil) me veio como um soco no estômago na primeira vez que assisti. Acho que foi a primeira vez que chorei de verdade assistindo um filme. Chorei de soluçar.


Sean Penn está espetacular interpretando Sam, um homem com sérios problemas mentais, um retardamento, como se seu QI fosse de uma criança...enfim. O fato é que ele engravida uma garota que, ao dar a luz à criança, a abandona.
Sam tem que criá-la sozinho.
Quando a garota, Lucy, interpretada de forma comovente pela Dakota Fanning, chega aos sete anos, o conselho tutelar aparece e a leva para um orfanato, alegando que Sam não tem condições de criá-la.

Entra em ação Rita Harrison, Michelle Pfeiffer arrasando também, uma advogada estressada que acaba, por acaso, assumindo o caso de Sam.
E assim se passa a trama de Sam tentando recuperar a guarda de sua filha.

O filme é todo maravilhoso. Uma fotografia notável, montagem espetacular, roteiro cativante e encantador e muito bem dirigido.
Fora a trilha sonora que conta com canções dos Beatles interpretadas por diversos artistas como Eddie Vedder e Wallflowers.

O filme é mais que recomendado.

Voltando um pouco a o que eu falava acima, esse filme é muito forte para qualquer pessoa com qualquer tipo de deficiência ou não
Para percebermos que todos temos nossas fraquezas, nossos momentos de desespero...

Eu assisto esse filme pelo menos uma vez a cada dois ou três meses.
E sempre choro nas mesmas cenas (e são várias as cenas que me emocionam).
Não será um problema físico que me impedirá de ser feliz, não é?

Ou é?

E é besteira não compartilhar isso com pessoas que você ama e confia.
Acontece que eu não consigo fazer isso. Porque realmente não saberia o que dizer...é tanta coisa, que eu acabo desistindo e fazendo uma piada sobre qualquer coisa.

Por isso tenho esse blog.

Pra dividir isso tudo.

Por isso, obrigado por estar aqui lendo isso tudo.


Passarinho, que som é esse?



Pearl Jam - Binaural

Toda banda com uma carreria sólida e com uma discografia extensa passa por isso.
Tem sempre um disco que é excelente e pouco lembrado até mesmo pelos fãs.

É o caso de Binaural, de 2000.
O Pearl Jam vinha de dois anos de muita atividade. Lançaram Yield e já saíram em turnê. Por problemas de saúde, finalmente sai o baterista Jack Irons (nunca gostei dele no PJ). no lugar dele entra o ex-Soundgarden Matt Cameron. E a turnê segue rendendo ainda naquele ano o lançamento do disco ao vivo Live On Two Legs.
Em 1999, ainda em turnê divulgando seu último disco lançado, participaram do disco Sem Fronteiras, em benefício das vítimas da guerra de Kosovo, com as músicas Last Kiss (que virou hit instantâneo) e Soldier Of Love.

Mas vamos ao Binaural.
O disco tem todos os elementos necessários para um fã do Pearl Jam, bem como para um apreciador de música em geral. Boas composições, criatividade e sensibilidade nos arranjos, peso quando necessário em algumas faixas, doçura em outras e uma produção cuidadosa.

Parece que o disco foi feito para que você não pule uma música sequer e ouça naquela sequência específica.
Começa com a furiosa Breakerfall, emenda com a energética God's Dice e, em seguida, a dançante Evacuation. Parece que foram feitas realmente para serem ouvidas nessa sequência.

E assim segue o disco. Não dá pra terminar de ouvir a viajandona Of The Girl e não pensar na bateria do início da divertida Grievance.

A banda está entrosadíssima em todo o disco. Timbres de guitarra escolhidos a dedo, o baixo criativo de Jeff Ament e a bateria cavalar de Matt Cameron, sem falar no vocal marcante de Eddie Vedder, que também toca guitarra em algumas músicas.
Falando na banda, é interessante notar que algumas das letras são de Stone Gossard e de Jeff Ament, coisa que não acontecia muito no início da banda, quando as letras ficavam somente a cargo de Vedder.

Particularmente, eu preciso citar a música Light Years, talvez a melhor faixa do álbum. Uma balada explêndida! A melodia de McCready e Gossard é lindíssima e Eddie Vedder traz uma letra tocante em homenagem a uma amiga da banda que sempre fora produtora deles e que morrera em 1997. No fim do refrão ele diz "nós não passamos de pedras, mas sua luz nos fez estrelas".

Foda pra caralho!

É um discão!
Vai lá ouvir!

Este disco é para quem gosta de:
Ativismo ambiental, cabelo ensebado, Neil Young, jogar basquete, camisetas largas, Screaming Trees, dirigir sozinho na estrada com o som alto.
Aperta o play, Macaco! - O Mistério do Samba - Mundo Livre S/A

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Silly Love Songs

Uma das coisas que mais me atrai no cinema e nas artes em geral, é o fato de poder ser surpreendido a qualquer momento.
Assistir a um filme, ouvir uma canção...e ser abruptamente tomado por determinado sentimento.

Também tem a liberdade.
Não só a liberdade criativa. Mas a liberdade de compreensão, interpretação...
A liberdade de se apaixonar.
E nessas horas a simplicidade, a ingenuidade...são coisas que tornam tudo mais encantador.

A música sempre me acompanhou quando estive apaixonado.
Além, é claro, de eu sempre ter sido apaixonado por música.

E quando você se desliga um pouco, fica vulnerável...
Mas o bichinho do coração está sempre ali mordendo. Faminto esperando uma paixãozinha que seja.
Todo mundo que não está apaixonado, sonha em se apaixonar.
Todo mundo que está apaixonado e não pode sequer pensar em ter a pessoa amada, também sonha em se apaixonar (por outra pessoa, claro).

Eu também sou assim.
Sonho em me apaixonar.

E um filme fez com que eu viesse aqui dizer isso tudo.
Um filme que eu dificilmente procuraria, já que sempre fui avesso a comédias românticas. Mas acabei vendo na TV este filme.
E fiquei encantado.

Letra e Música, Music and Lyrics no original, é uma comédia romântica.
Um filme que ganha o espectador por ter um roteiro levíssimo e despretensioso. E tem um charme a mais por se tratar de música, explorar de forma engraçada o revival dos anos oitenta.



Basicamente o filme gira em torno de Alex Fletcher (Hugh Grant), um astro pop dos anos oitenta que tenta desesperadamente escapar do ostracismo. Ele tem a oportunidade de voltar ao showbizz, mas para isso preciso compor uma canção nova. Como nunca fora letrista, casualmente ele acaba fazendo uma parceria com Sophie Fisher (Drew Barrymore), que cuidava das plantas do cantor e acabou se mostrando boa com as palavras.

Entre idas e vindas, é óbvio desde o início para todo mundo que eles vão acabar juntos.

O que interessa aqui é o meio do caminho.
Há de se dar o braço a torcer para Hugh Grant que consegue fazer uma atuação eficaz, no limite entre o mimado preguiçoso e o charmoso inseguro. Drew Barrymore também está encantadora.

É um filme onde não se cabe exigir uma fotografia primorosa ou um roteiro complexo. Não é um filme para ganhar prêmios.
É entretenimento.
E é muito eficiente nisso.

Além de ser sim muito emocionante, com um final de arrancar lágrima dos olhos de qualquer garota. Também pode fazer cair um cisco nos olhos de alguns marmanjos desavisados.

Eu recomendo mesmo este filme.
É uma comédia romântica. Mas sem o peso pejorativo do termo.

Sem contra-indicações.


Passarinho, que som é esse?


Cowboys Espirituais - DeLuxe

Antes de qualquer coisa, os Cowboys Espirituais é uma mega-banda, que reúne músicos de bandas fundamentais do rock gaúcho.
Dito isso, acrescenta-se o fato de produzirem uma mistura irresistível de country, folk e rock n' roll.
A banda foi formada em 1998 capitaneada por Julio Reny (Expresso Oriente) em parceria com Marcio Petracco (TNT) e Frank Jorge (Graforréia Xilarmônica).
Lançou o primeiro disco homônimo naquele mesmo ano.
Em 2000, Frank se desligou da banda amigavelmente para seguir sua carreira solo, mas ainda participou das gravações do segundo disco da banda: DeLuxe.

O primeiro disco, Cowboys Espirituais, vinha carregado de melodias calcadas no bluegrass e country, com uma sonoridade retrô.

Já este DeLuxe dá mais forma à proposta da banda de mesclar tais melodias do primeiro disco, com uma pegada mais rock. Aqui temos mais guitarras e várias canções que bem poderiam ser um bluegrass, mas soam mais como rocks devido às guitarras de Petracco estarem mais presentes.

O disco abre com Jesse James, música sensacional, uma viagem ao velho oeste com steel guitar e tudo. Por ser a primeira faixa, é a canção que mostra a que veio o disco.

Seguem-se A Última Dança, Amor e Morte...canções fortes. Praticamente rocks.
O disco conta também com belas baladas como Você Não Pode Parar e A Noite Vem Caindo.
O country de raiz está bem representado nas excelentes Paisagem Campestre e Tem Gente Que É Feliz.

O disco ainda conta com duas versões muito bacanas. Por ser tão óbvio, os caras capricharam no arranjo country rock de Cowboy Fora da Lei do Raul Seixas. E a surpresa é a música Loira Loirinha, clássico da dupla Tonico e Tinoco. A música ganhou uma introdução hard rock, mas seguiu na linha country festiva dos cowboys.

É um disco saboroso pra ouvir naquele churrasco na fazenda ou no boteco jogando sinuca.
Diversão garantida em 13 músicas com arranjos caprichadíssimos e interpretação ídem.

Recomendado.


Este disco é para quem gosta de:
Usar chapéu e botina, cheiro de terra molhada, cerveja, Hank Willians, fumar cigarro de filtro vermelho, Lynyrd Skynyrd, carne mal-pasada, guitarras Telecaster.

Aperta o Play, Macaco! - Hey, Johnny Park! - Foo Fighters

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sabe por quê a vida é uma merda?
Porque, na maoiria das vezes, agimos de acordo com sentimentos mesquinhos...acabamos sendo menos racionais do que deveríamos.
E isso é natural a todo ser humano.

Mas tá tudo bem. Porque sempre tem quem perdoe tuas cagadas. Mesmo que tu não peça perdão.

Se existe em cada um de nós um ou mais monstros, também existem um ou mais heróis.
A diferença é que os monstros são mais sem-vergonha e aparecem com mais frequência, sem tu pedir. Já os heróis, ficam ali, na deles. E, muitas vezes, é difícil encontrar o caminho para chegar até eles e pedir que façam algo.

Ultimamente minha vida tem sido assim. Vou agindo , fazendo merda...e depois me dou conta das cagadas que fiz. Penso que poderia ter feito aquilo, dito aquilo outro...

Por isso assisti essa semana Onde Vivem Os Monstros, do Spike Jonze, e me emocionei muito.

Um filme que, a príncípio, seria um filme infantil, desses que a criança mal-criada sonha alguma coisa, ou sei lá o quê e aprende que a mãe está certa em mandá-lo escovar os dentes antes de dormir.
Mas ao decorrer do filme me deparo com um filme totalmente diferente. Uma abordagem nada infantil de uma realidade infantil...quero dizer, a realidade de uma criança.

A idéia é genial. Fazer vários monstros, cada um uma faceta da personalidade da criança. E ele, nomeado rei, acha que fará infinitas coisas. Faz tudo que uma criança faz: fantasia, se confunde, se diverte...e a cada momoento ao lado de um monstro, que é uma faceta de sua personalidade.

Acabei de ver o filme chorando bastante, tamanha a carga dramática que Jonze atira na tela, aliada a atuação eficaz do jovem Max Records.
Em alguns momentos a fotografia é brilhante e a montagem deixou a desejar pra mim em alguns momentos. Mas isso fui notar só na segnda vez que assisti. Quando se assiste pela primeira vez, não dá pra notar detalhes técnicos...

O que mais me marcou neste filme foi a solidão. Pois no fim, o filme é sobre o garoto Max convivendo com seus próprios monstros. Se sentindo sozinho, querendo atenção da mãe, da irmã mais velha...

Pra te falar a verdade, acho que este filme é a versão infantil do Clube da Luta.

E como se Max fosse o Edward Norton e os monstors fossem um só: Tyler Durden.
O forte que Max planeja construir com Carol, seu amigo mais próximo (justamente por ser o mais instável e "birrento" dos monstros) é o Projeto Maihen de Tyler Durden.

É um filme cheio de surpresas, um roteiro lindo e repleto de cenas encantadoras.

Recomendo este filme para todo mundo! De qualquer idade, que fique claro, já que queimei minha língua, pois quando o filme entrou em cartaz no cinema achei que era filme de criança e não fui ver.


Passarinho, que som é esse?


(What's The Story) Morning Glory? - Oasis


Os Oasis certamente foram uma das bandas mais controversas dos anos noventa.
Criaram polêmica alardeando serem melhores que os Beatles, criando confusão em tudo quanto é lugar, as costumeiras brigas entre os irmãos Liam e Noel Gallangher...realmente eles tinham tudo para serem desprezados.

Mas acontece que após um disco de estréia contagiante, eles aparecem em 1995 com (What's The Story) Morning Glory? um disco irretocável.

Uma pena que alguns fãs dos Beatles confundam referências com plágio, acusando os Oasis de copiar os Beatles.
O fato é que os irmãos Gallangher, além de barraqueiros, são compositores de primeira!

O disco abre com a faixa Hello dando o tom do disco. Guitarras altas, boas melodias e letras falando de amor, alegria, ligar o foda-se...Um disco que condensa o rock n' roll desleixado, a doçura das canções de amor...tudo na medida exata.

Não dá pra não citar faixas como Don't Look Back In Anger, Roll With It, Some Might Say...músicas contagiantes.
Há ainda as belas baladas Champagne Supernova, a belíssima Cast No Shadow e a famosona Wonderwall.

A produção do disco ficou por conta de Owen Morris, que, sabiamente, deixou o som da banda cru na medida, como se estivessem tocando num pub para uma pequena, mas animadíssima platéia.

Para mim, os grandes destaques do disco são as músicas Some Might Say com uma melodia contagiante, a pesada Morning Glory e, minha favorita, She's Electric, o tipo de música que eu costumo chamar de perfeita. Tem uma melodia simples, mas envolvente e deliciosa, uma letra bem sacada, um arranjo esperto...

Olha, vá ouvir esse disco sem medo.
Você vai comprovar que é um disco onde não se pula uma única faixa. E no final ainda dá vontade de ouvir mais.

Este disco é para quem gosta de:
Fazer birra, cabelo na testa, tomar porres e dar trabalho, The Who, drogas sintéticas, roupas de brechó, The Beatles, pós-punk e a bandeira da Inglaterra

Aperta o play, Macaco! - Padam Padam - Edith Piaf

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Aproveitando um trabalho que tive que fazer para a faculdade, assisti o filme nacional Como Fazer Um Filme de Amor.

Achei o filme bem interessante e resolvi resenhar ele aqui pra vocês.

Como Fazer Um Filme de Amor


Mascando clichê.


O título deste filme de José Roberto Torero é muito auto-explicativo.
O filme vem retratar todos os clichês possíveis e imagináveis usados para atrair a atenção do público-alvo de filmes românticos (leia-se: mulheres).

O longa ganha pontos por ser um filme autoral (coisa cada vez mais rara, não só no cinema nacional). Torero é um roteirista de mão cheia. Neste trabalho, amarra muito bem as cenas, fazendo uso de um narrador esperto e engraçado.

As atuações funcion
am bem. Denise Fraga é a protagonista junto com Cássio Gabus Mendes.
Fraga é a típica mocinha de comédias românticas. Simpática, divertida, esforçada, bondosa...ela tem que ser encantadora sem fazer uso somente da beleza. Mas seu desempenho deixa um pouco a desejar. Ela não consegue cativar o espectador como deveria. Mas se sai bem nas cenas mais engraçadas.
Cássio Gabus Mendes já consegue se sair melhor. É convincente ao viver o típico mocinho de filmes românticos, um homem charmoso e petulante, mas solitário. Além, é claro, de ter uma veia cômica excelente.

Mas, como bom clichê d
e cinema, o destaque fica com o vilão. Marisa Orth desempenha maravilhosamente o papel de vilã! Usa de todos os clichês existentes. Roupas escuras, é meio brega, mal-humorada e tem um capanga brucutu (vivido com perfeição por André Abujamra). Orth é naturalmente uma atriz de comédia, o que torna sua personagem ainda mais deliciosa.

O uso dos clichês, que muitas vezes pode decepcionar o espectador, torna o filme mais interessante, já que o narrador (o excelente ator Paulo José) vai deixando claro que aquilo tudo é intencional, justamente para ficar explícito como deve ser feito um filme de amor.

Todos os clichês estão lá. O casal protagonista se encontra pela primeira vez e se desentende, além de, aparentemente, não terem nada em comum.
Laura (Denise Fraga) é meiga e engraçada, boazinha...se preocupa com a mãe doente. Alan (Cássio Gabus Mendes) é ri
co, petulante, mas charmoso e, no decorrer do filme, se mostra solitário. Cada um deles tem um confidente. Ela a mãe, ele o mordomo.

A vilã Lilith (Marisa Orth) é autoritária, mesquinha, mau-humorada. Seu capanga Adolf (André Abujamra) é um brucutu alemão com sotaque carregado, desprovido de cérebro e devoto incondicional de sua chefe.

Ao decorrer do filme, mais e mais clichês pipocam na tela. Praias desertas, o casal correndo em câmera lenta, depois lado a lado trocando segredos, a vilã enciumada faz de tudo para separar o casal apaixonado e, é humilhada no final. O mocinho faz uma "loucura" para demonstrar seu amor...

Enfim. É um filme que ironiza este filão tão rentável do cinema, que se faz valer de uma fórmula só, não deixando espaço para roteiros mais ousados.
E este é o grande mérito de Como Fazer Um Filme de Amor.


Passarinho, que som é esse?


Era Uma Vez Um Gato Xadrez - Acretinice me Atray

Li em algum lugar que deve ter alguma coisa na água do rio Guaíba que faz sair de Porto Alegre tanta banda esquisita.
Deve ser verdade.
Acretinice me Atray é um projeto musical que vem desde o começo dos anos noventa, capitaneado por Egisto Dal Ponte, membro dos Colarinhos Caóticos e produtor do clássico primeiro disco do Júpiter Maçã.
Em resumo, a banda teve várias formações e sempre primou pelo improviso, letras beirando a poesia e o nonsense...tudo muito cretino mesmo.
A formação clássica da banda está neste disco, lançado em 2000: Egisto Dal Santo (baixo), Cléo de Páris (vocal), Jimi Joe (guitarra), Astronauta Pingüim (teclados) e G. Schneider (bateria e outras percussões).

Era Uma Vez Um Gato Xadrez traz a irreverência do rock gaúcho, calcada no teatro do absurdo, jovem-guarda, Oscar Wilde, clichês retrô...tudo programado pra ser exagerado, até mesmo meio forçado. Cretino mesmo!

Essa mistura toda acaba tornando o disco maravilhoso. Tem boas melodias, bom humor, espetadas no povinho pseudo-intelectual...

A música que abre o disco dá o tom da obra toda. Boneca Comestível é uma música jovem-gardista com uma letra bizarra, um haikay nonsense.
Daí em diante, rola muito rock n' roll com um pé no blues e outros trinta e nove pés na psicodelia.

Destaco as canções Meu Amor/Não Existe Amor, Relâmpagos do Progresso, Duas Mulher e Sandina (que ficou famosa pelos Replicantes nos anos oitenta).

Se tu não está habituado a muita loucura sonora, fuja deste disco e vá procurar Mutantes, Júpiter Maçã e coisas do gênero.
Para iniciados neste filão, é só ouvir e se deleitar.

Este disco é para quem gosta de: Tirar onda de retrô, LSD, roupas coloridas, pin-ups, Syd Barret, Monty Phyton, rock gaúcho, brechó, goma de mascar.

erta o play, Macaco! -
I Will - The Beatles



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ESPECIAL PAUL McCARTNEY

ATENÇÃO
Este é um post diferente do formato que você está acostumado a ler.
Não terá resenha de filme e nem a seção "Passarinho, que som é esse?"



Como descrever algo que pareceu um sonho?
Algo que na realidade, sempre foi um sonho distante.

Em outubro se confirmaram os boatos.
Paul McCartney passaria pelo Brasil em novembro.
A venda de ingressos, um caso á parte. A princípio disponíveis somente para clientes do banco Bradesco com cartão de crédito.
Foi onde entraram em ação os amigos. Nos organizamos de forma que ninguém ficasse de fora e garantisse seu ingresso logo na pré-venda.

Nos primeiros minutos do dia 15 de outubro todos os meus sentidos estavam voltados para meu computador. A tensão era enorme. Quando a Patrícia me enviou a mensagem de confirmação um alívio incrível e um frio na espinha percorreu meu corpo.
Paul McCartney passaria pela América Latina em novembro com sua turnê Up and Coming nas cidades de Porto Alegre no dia 07 de novembro, Buenos Aires nos dias 10 e 11 e São Paulo nos dias 21 22.
E meu ingresso para o show do dia 21 de novembro em São Paulo, no estádio do Morumbi, estava garantido.
Pista prime. Na cara do gol!

O espaço de tempo entre o dia 15 de outubro e o dia 20 de novembro pareceu mais longo do que realmente é.
Mas chegou. No sábado, dia 20, peguei a estrada para São Paulo cercado de bons amigos.
A viagem, como se esperava foi divertidíssima. Fomos em dois carros, sendo que tínhamos um par de walk-talkies, por onde os dois carros se comunicavam.


Em São Paulo, no sábado de noite, reunimos toda a turma, de Marília e de São Paulo, num boteco para combinar os detalhes do dia seguinte. E poucas vezes rimos e nos divertimos tanto quanto naquela noite.


E o domingo despontou com sol, contrariando as previsões de chuva. Após um almoço um pouco conturbado num shopping abarrotado de gente nas proximidades do estádio do Morumbi, seguimos, devidamente uniformizados com as camisetas criadas e desenvolvidas por Patrícia, Bruno e Gabriela, para nosso destino: intermináveis filas debaixo do sol.


A única decepção deste show foi a organização na parte de fora do estádio.
Filas bagunçadas se perdiam pela calçada do Morumbi. Os organizadores do evento estavam mais perdidos que o próprio público.


Mas no fim, separamos a turma da pista comum e da pista prime e, cada um pro seu lado, acabou encontrando seu lugar ao sol (e que sol).
Um evento desta magnitude proporciona a oportunidade de se ter contato com gente de todas as regiões do país, e de várias gerações.
Na fila, conversei com um rapaz de Belo Horizonte, uma garota de Recife, outra de Piracicaba e uma senhora de Campo Grande que viera com o marido e filhos.
Com pouco atraso os portões foram abertos por volta de cinco e quarenta e cinco para a entrada do público.
Uma vez lá dentro, vendo aquele palco enorme um aperto no peito é inevitável.

A espera é longa. São três horas e meia que parecem ser seis.

Mas houveram momentos divertidos. Encontramos um casal de meia-idade muito simpático que veria o Macca pela segunda vez. Conversamos e rimos muito.

Mas ás nove da noite em ponto os telões se acendem e começam a passar imagens, recortes, textos e fotos retratando a carreira de McCartney, enquanto sucessos remixados do cantor são tocados. É o começo de tudo.

Pontualmente nove e meia da noite Paul McCartney entra no palco e acena sorridente a um público que cantarola em uníssono "we love you yeah yeah yeah".
A banda ataca a sequência Venus and Mars/Rock Show/Jet. Abraços, lágrimas e gritos por todos os lados. Começava ali uma experiência única para cada uma das 64 mil pessoas ali presentes.

No empurra-empurra eu já não via mais ninguém da turma que estava comigo.
E não estava ligando a mínima para isso.

O show começou energético. Após a sequência de abertura, McCartney esbanjou simpatia falando em português. "Boa noite, paulistas! Boa noite, Brasil!" o público delirou com a saudação. O ex-beatle ainda emendou com bom humor: "Esta noite vou falar um pouco em português. Mas vou falar mais em inglês.".
Na sequência vem All My Loving, clássico do início dos Beatles. Ainda viriam outras canções do tempos dos Beatles como Drive My Car e I've Just Seen a Face.

A magia emanava do palco e contagiava o público. Em The Long and Winding Road era raro ver um rosto sem lágrimas.
Até mesmo as falas ensaiadas e repetidas em shows anteriores emocionavam. Antes de executar My Love, todos já sabiam que Paul Diria "Essa música eu escrevi para a minha gatinha Linda. Mas esta noite ela é para todos os namorados.". Antes de terminar a frase o público já vibrava. E mais e mais lágrimas.

Outra marca das apresentações de McCartney são as homenagens aos dois beatles já falecidos, John Lennon e George Harrison.
Para Lennon, Paul toca emocionado, sozinho no palco a canção Here Today, escrita em homenagem a John Lennon em 1982.
Mas é quando se refere a George Harrison que McCartney eleva a níveis estratosféricos as emoções do público. Paul toca Something, canção escrita por Harrison, inicialmente sozinho com um ukelele (instrumento havaiano que George gostava muito). Mas quando a música chega no momento do solo de guitarra, as luzes do palco se acendem e a banda entra junto.
Enquanto o belíssimo solo de guitarra é tocado, fotos de Harrison passam no enorme telão. E o público mais uma vez explode em choro.

Outro momento sublime durante a apresentação do músico partiu do público. Sabendo que Paul costuma tocar A Day in The Life e emendar Give Peace a Chance (canção de John Lennon), pela internet, os fãs combinaram, através de sites de relacionamento, levar centenas de bexigas brancas para serem lançadas ao ar quando fossem tocadas essas canções. McCartney ficou visivelmente tocado com a cena.

E muito mais ainda viria. A pirotecnia de Live and Let Die, a contagiante Band On The Run e mais standards dos Beatles como Ob-La-Di Ob-La-Da, Back In The USSR, Paperback Writer e Hey Jude.


Em especial I've Got A Felling me enlouqueceu, já que desde sempre está entre minhas favoritas, não só dos Beatles, mas de todo o universo do rock n' roll.

O músico ainda saiu e voltou duas vezes para o bis. Na primeira vez, tocou Day Tripper, Lady Madonna e Get Back. No segundo e final tocou a famosa Yesterday, Helter Skelter e finalizou como costuma fazer há tempos, tocando Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise) e The End.
Um final para derrubar até mesmo o mais gelado dos corações humanos.
A belíssima melodia, e a letra...e ao fundo um sol nascente no telão...
E dá-lhe nó na garganta e mais lágrimas.

Detalhe que Macca, no final de tudo, quando se despedia do público, foi dar uma de suas corridinhas no palco e tropeçou levando um tombaço. Tudo mostrado pelos dois enormes telões ao lado do palco.
Mas, como sempre, ele mostrou senso de humor, sorriu, acenou pro público e foi embora.

Paul McCartney justifica sua mítica imagem e reputação de maior ícone da cultura pop vivo.
São praticamente três horas de show, 36 canções tocadas e McCartney, com seus 68 anos de idade, parece incansável, sempre sorridente e amável com seu público.
Mesmo com uma banda competentíssima e vigorosa ao seu lado, McCartney tem uma presença de palco magnética, tendo domínio completo do público, que só tem olhos para ele.

Assistir um show de Paul McCartney é mais que simplesmente presenciar um grande show de rock. É uma experiência de vida que transcende a música. Algumas das poucas palavras que consigo encontrar para descrever o que foi estar diante daquele palco são magia, amor e harmonia.

Claro. A viagem de volta foi igualmente divertida, apesar de um pouco tensa no final.

Faço questão de agradecer aqui de todo coração aos melhores amigos que se pode ter e que compartilharam todas essas emoções lá comigo.

Antonio Paulo
Bia
Bruno
Fernando
Gabi
Ian
Julia
Mírian
Nicolau
Patrícia
Samira
Victor


Também faço questão de agradecer a ele: Sir Paul McCartney!
Por ter passado por aqui e nos dar a oportunidade de presenciar este que, certamente, foi e será o mais importante evento da minha vida.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma das coisas mais injustas para mim é escolher apenas uma pessoa para ser o "melhor amigo".
Eu tenho tantos amigos extraordinários, que não acho justo dizer que um é melhor.

Assim como o amor, a amizade não pode ser medida. Logo, não dá pra dizer quem é mais ou menos amigo.
O amigo é o cara que se preocupa contigo, que diz as verdades que tu precisa ouvir, que te dá conforto quando tu está mal, que te dá ânimo, que te diverte, que te faz gargalhar, que te faz chorar, que te escuta...

Falar sobre amizade é meio besta até, porque todo mundo sabe muito bem o que representa ter um bom amigo por perto, ou mesmo longe.

Mas é sempre bom lembrar da importância de se ter bons amigos.

Essa é uma das premissas do filme que venho falar hoje.

Mary & Max é uma animação lançada em 2009.
Mas não uma animação qualquer. Está longe de ser algo infantil, inocente...

A história, baseada em fatos reais, fala sobre Mary, uma criança introvertida, cheia de dúvidas e muito imaginativa.
Certo dia, Mary, que morava na Austrália, esperava por sua mãe numa agência de correios e resolve escolher um endereço aleatoriamente numa lista para escrever tentando conseguir respostas de algumas de suas dúvidas.

Ela acaba escrevendo para Max, um solitário homem de 40 anos morando em Nova York.
Max, intrigado, responde à carta de Mary e eles começam a se corresponder com frequência, iniciando uma amizade inusitada entre duas pessoas tão diferentes, e, ao mesmo tempo, tão parecidas (é um clichê, eu sei...).

Mas, apesar do clichê, a história funciona.
O roteiro é maravilhoso. Bem amarrado, consegue emocionar e fazer rir até chegar a um final soberbo.
Os desenhos são muito bons. A estética, um pouco sombria, lembra um pouco os trabalhos de Tim Burton, mas não chega a ser soturno, tem uma leveza...só vendo mesmo. É difícil explicar.

A direção é do premiado Adam Elliot, ganhador do Oscar em 2004 na categoria melhor curta-metragem.
Uma direção cuidadosa e muito eficiente, diga-se.

O filme é belíssimo.
Vai agradar tanto amantes de animação quanto amantes do bom cinema.
Se você gosta de filmes com um roteiro esperto, cenas emocionantes e finais surpreendentes, não deixe de assistir Mary & Max.

Ah, esqueci de dizer...quem dubla o personagem Max é só o Philip Seymour Hoffman.


Passarinho, que som é esse?



Mondo Cane - Mike Patton


Ao ler o nome Mike Patton, muita gente já pensa em distúrbios musicais, grunhidos e experimentações.
Não é que não seja verdade. Mas a versatilidade de Patton faz com que um nó na cabeça das pessoas apareça sempre.

Nada como um artista que tem o saudável costume de surpreender sempre seu público.

Mondo Cane é o mais recente projeto de Patton.
Um disco onde não encontram-se a psicodelia do Mr. Bungle, a violência dos Fantômas ou as melodias tortas do Faith No More.
Neste disco Mike Patton mostra sua verve mais pop, beirando o brega. Mas com um estilo único.

Admirador confesso de Ennio Morricone e dominando a língua italiana, Patton resolve gravar um punhado de canções italianas que foram sucesso nos anos 50.
E o resultado é inacreditável.

Basicamente os arranjos das canções não foram alterados drasticamente.
Essa é a primeira surpresa.
A segunda, e mais importante, é a interpretação de Mike Patton.

Com toda uma orquestra por trás, Patton mostra que ainda merece a alcunha de Homem das Mil Vozes.
Ele desfila seus famosos graves, alguns urros guturais e tudo o mais que lhe rendeu reconhecimento e respeito em todo o mundo.

O carro-chefe do disco é Deep Deep Down, de Ennio Morricone em uma versão suave e agradabilíssima.
Ainda destacam-se Urlo Negro, a mais agressiva do disco, a bela Il Cielo In Una Stanza, Ore D'Amore, com um arranjo incrível, 20km Al Giorno, com uma levada deliciosa...Mas minha favorita é Che Notte! Uma música forte com uma interpretação invejável de Patton...um arranjo jazz dançante e envolvente.

O disco todo é surpreendente.
Um disco delicioso de se ouvir em qualquer momento.

Vá procurar agora!


Este disco é para quem gosta de:
Festa à fantasia, western spaguetti, cores quentes, Ennio Morricone, queijo e vinho, apartamentos amplos, Faith No More, sarcasmo.

Aperta o play, Macaco! - Che Notte! - Mike Patton

domingo, 7 de novembro de 2010